Relátórios de economia
5/2/2026

No desfile da Selic em queda

Por

Cristiane Quartaroli

Carnaval chegando e não sefala em outra coisa: quem vai ganhar o desfile este ano? Ops... bem que poderiaser, mas no mercado financeiro a história é outra e o samba enredo do momentoé: para onde vai a taxa de juros em 2026? Pois é, caros leitores, com aproximidade do Carnaval, o país entra naquele período em que a economiadesacelera no curto prazo, mas o planejamento de médio e longo prazos segueexigindo atenção redobrada. Na política monetária, o cenário não é diferente.Após um ciclo intenso de aperto, o Banco Central inicia o ensaio geral para umnovo regime de juros, em que 2026 surge como o ano de consolidação de uma Selicmais baixa — ainda que longe de um ambiente francamente expansionista. Agora, oque todos querem saber é como o espetáculo será conduzido ao longo ano. Vamos ver?

Oh abre alas...

Neste desfile, os indicadores de inflação acompanham o ritmo da bateria que dita a evolução dos juros. O mercado, por sua vez, atua como comissão de frente, antecipando movimentos e ajustando expectativas conforme os dados de inflação, atividade e o comportamento do cenário externo. Já o fiscal permanece como o carro alegórico mais pesado: imponente, inevitável e capaz de comprometer a harmonia do desfile caso avance fora do tempo. Assim como na avenida, onde o excesso de improviso costuma custar pontos, a condução da política monetária em 2026 exige coordenação fina, previsibilidade e disciplina. O desafio do Banco Central será atravessar a avenida do ciclo de afrouxamento sem perder o passo, evitando que ruídos políticos, pressões inflacionárias pontuais ou choques externos desorganizem um desfile que, até aqui, começa a ganhar forma. Este relatório analisa os fatores que ditarão o ritmo dos cortes e os riscos capazes de transformar um desfile bem ensaiado em uma travessia turbulenta.

Deixa a inflação passar...

Na ala da inflação, a bateria finalmente toca o passo mais cadenciado: dados e projeções mais recentes mostram que as pressões inflacionárias vêm perdendo força, abrindo espaço para que o desfile da política monetária ganhe leveza. Os dados recentes mostram desaceleração gradual dos preços, fruto da atividade perdendo fôlego, do efeito cumulativo dos juros elevados e da dissipação de choques mais ruidosos do passado, como a taxa de câmbio mais pressionada. Os núcleos caminham com mais compostura pela avenida, enquanto os serviços insistem em sambar em ritmo ainda acelerado (ver gráfico), exigindo atenção do mestre-sala da política monetária. No último Boletim Focus, a mediana das expectativas para o IPCA de 2026 recuou mais um pouquinho, para 3,99%, ainda acima do centro da meta, mas marcando a quarta semana consecutiva de queda nas previsões — um verdadeiro samba de enredo favorável no quesito preços. Essa tendência de desaceleração nas expectativas, que começam a se aproximar de um compasso mais sereno, reforça a confiança de que, ao longo do ano, a inflação poderá acompanhar os passos mais suaves da bateria, dando ao Banco Central margem para conduzir um afrouxamento gradativo da Selic sem atropelos — um enredo em que os preços desfilam mais tranquilos e as expectativas parecem seguir o caminho para a meta.

Até quando o PIB vai andar...

No setor da atividade econômica, o desfile também está em andamento, contudo nem todos os conjuntos coreográficos seguem o mesmo passo. O Brasil entrou na avenida com crescimento moderado: projeções indicam que o PIB deverá avançar cerca de 2,3% em 2025 (número será conhecido no início de março) e desacelerar para algo em torno de 1,6%–1,8% em 2026, depois de dados ligeiramente melhores nos anos anteriores, reflexo de um quadro de demanda ainda resiliente, mesmo sob influência de uma política monetária mais restritiva e de ventos externos soprando em diversas direções. No camarote da confiança, o público consumidor começa a se animar um pouco mais e arrisca uma evolução menos contida. Impulsionada pela desaceleração da inflação, a confiança do consumidor mostrou melhora recente, de acordo com dados da FGV, como quem observa a bateria, mas já está pronto para cair de vez no samba. Já a ala do empresariado, mais contida nos levantamentos recentes, reflete cautela e falta de entusiasmo, como um desfile correto, mas ainda longe de empolgar a arquibancada (ver gráfico). Assim, no grande baile da economia, o enredo da atividade caminha num meio termo: continua a crescer, mas com passos contidos — um ritmo que deverá orientar, e muito, as expectativas para a trajetória da taxa Selic em 2026.

E por falar em ventos lá de fora, eles chegaram chegando em 2026…

No cenário internacional, o desfile segue menos previsível e com alas que insistem em atravessar a avenida fora do tempo. As tensões geopolíticas continuam fazendo barulho nos bastidores — conflitos no Oriente Médio, a Guerra ainda sem desfecho no Leste Europeu e uma geopolítica cada vez mais fragmentada mantêm os prêmios de risco elevados e deixam o mercado em estado de alerta permanente. Ao mesmo tempo, o ritmo da bateria americana comanda a maior das alas. O Federal Reserve desfila com cautela e sinaliza cortes de juros graduais e dependentes dos dados, após um ciclo de política monetária mais restritiva. A taxa de juros nos EUA deve cair ao longo de 2026 (ver gráfico), mas em um compasso mais lento do que o sonhado por parte do mercado, mantendo as condições financeiras globais relativamente apertadas. Para economias emergentes, como o Brasil, esse cenário funciona como um freio adicional: limita o espaço para cortes mais acelerados da Selic, influencia o comportamento do dólar e exige que o Banco Central desfile com atenção redobrada para não perder pontos no quesito credibilidade. Em suma, o samba internacional não desafina por completo, tampouco embala — e, nesse Carnaval global, seguir no ritmo certo importa mais do que acelerar demais.

No final da avenida, o balanço do desfile aponta para um enredo menos exuberante, porém tecnicamente bem executado. A combinação de inflação em desaceleração, atividade perdendo fôlego e ambiente externo ainda exigente sustenta a narrativa de que a Selic deverá, sim, seguir em trajetória de queda em 2026 — mas sem firulas ou passos largos demais. O Banco Central entra no último trecho do desfile com espaço para reduzir juros de forma lenta e gradual (a projeção do Focus é que a Selic encerre o ano em 12,25%), ajustando o próximo passo a cada dado novo, atento ao comportamento dos preços, à reação da atividade e, sobretudo, ao peso do carro alegórico fiscal. O risco maior não está em errar o passo por excesso de cautela, mas em ceder à tentação de acelerar além do ritmo permitido pela bateria. Assim, o Carnaval dos juros em 2026 tende a ser menos sobre euforia e mais sobre técnica, um desfile de transição em que ganhar pontos na credibilidade vale mais do que arrancar aplausos momentâneos da arquibancada.

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