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Carnaval chegando e não se fala em outra coisa: quem vai ganhar o desfile este ano? Ops... bem que poderia ser, mas no mercado financeiro a história é outra e o samba enredo do momento é: para onde vai a taxa de juros em 2026? Pois é, caros leitores, com a proximidade do Carnaval, o país entra naquele período em que a economia desacelera no curto prazo, mas o planejamento de médio e longo prazos segue exigindo atenção redobrada. Na política monetária, o cenário não é diferente. Após um ciclo intenso de aperto, o Banco Central inicia o ensaio geral para um novo regime de juros, em que 2026 surge como o ano de consolidação de uma Selic mais baixa — ainda que longe de um ambiente francamente expansionista. Agora, oque todos querem saber é como o espetáculo será conduzido ao longo ano. Vamos ver?
Oh abre alas...
Neste desfile, os indicadores de inflação acompanham o ritmo da bateria que dita a evolução dos juros. O mercado, por sua vez, atua como comissão de frente, antecipando movimentos e ajustando expectativas conforme os dados de inflação, atividade e o comportamento do cenário externo. Já o fiscal permanece como o carro alegórico mais pesado: imponente, inevitável e capaz de comprometer a harmonia do desfile caso avance fora do tempo. Assim como na avenida, onde o excesso de improviso costuma custar pontos, a condução da política monetária em 2026 exige coordenação fina, previsibilidade e disciplina. O desafio do Banco Central será atravessar a avenida do ciclo de afrouxamento sem perder o passo, evitando que ruídos políticos, pressões inflacionárias pontuais ou choques externos desorganizem um desfile que, até aqui, começa a ganhar forma. Este relatório analisa os fatores que ditarão o ritmo dos cortes e os riscos capazes de transformar um desfile bem ensaiado em uma travessia turbulenta.
Deixa a inflação passar...
Na ala da inflação, a bateria finalmente toca o passo mais cadenciado: dados e projeções mais recentes mostram que as pressões inflacionárias vêm perdendo força, abrindo espaço para que o desfile da política monetária ganhe leveza. Os dados recentes mostram desaceleração gradual dos preços, fruto da atividade perdendo fôlego, do efeito cumulativo dos juros elevados e da dissipação de choques mais ruidosos do passado, como a taxa de câmbio mais pressionada. Os núcleos caminham com mais compostura pela avenida, enquanto os serviços insistem em sambar em ritmo ainda acelerado (ver gráfico), exigindo atenção do mestre-sala da política monetária. No último Boletim Focus, a mediana das expectativas para o IPCA de 2026 recuou mais um pouquinho, para 3,99%, ainda acima do centro da meta, mas marcando a quarta semana consecutiva de queda nas previsões — um verdadeiro samba de enredo favorável no quesito preços. Essa tendência de desaceleração nas expectativas, que começam a se aproximar de um compasso mais sereno, reforça a confiança de que, ao longo do ano, a inflação poderá acompanhar os passos mais suaves da bateria, dando ao Banco Central margem para conduzir um afrouxamento gradativo da Selic sem atropelos — um enredo em que os preços desfilam mais tranquilos e as expectativas parecem seguir o caminho para a meta.

Até quando o PIB vai andar...
No setor da atividade econômica, o desfile também está em andamento, contudo nem todos os conjuntos coreográficos seguem o mesmo passo. O Brasil entrou na avenida com crescimento moderado: projeções indicam que o PIB deverá avançar cerca de 2,3% em 2025 (número será conhecido no início de março) e desacelerar para algo em torno de 1,6%–1,8% em 2026, depois de dados ligeiramente melhores nos anos anteriores, reflexo de um quadro de demanda ainda resiliente, mesmo sob influência de uma política monetária mais restritiva e de ventos externos soprando em diversas direções. No camarote da confiança, o público consumidor começa a se animar um pouco mais e arrisca uma evolução menos contida. Impulsionada pela desaceleração da inflação, a confiança do consumidor mostrou melhora recente, de acordo com dados da FGV, como quem observa a bateria, mas já está pronto para cair de vez no samba. Já a ala do empresariado, mais contida nos levantamentos recentes, reflete cautela e falta de entusiasmo, como um desfile correto, mas ainda longe de empolgar a arquibancada (ver gráfico). Assim, no grande baile da economia, o enredo da atividade caminha num meio termo: continua a crescer, mas com passos contidos — um ritmo que deverá orientar, e muito, as expectativas para a trajetória da taxa Selic em 2026.

E por falar em ventos lá de fora, eles chegaram chegando em 2026…
No cenário internacional, o desfile segue menos previsível e com alas que insistem em atravessar a avenida fora do tempo. As tensões geopolíticas continuam fazendo barulho nos bastidores — conflitos no Oriente Médio, a Guerra ainda sem desfecho no Leste Europeu e uma geopolítica cada vez mais fragmentada mantêm os prêmios de risco elevados e deixam o mercado em estado de alerta permanente. Ao mesmo tempo, o ritmo da bateria americana comanda a maior das alas. O Federal Reserve desfila com cautela e sinaliza cortes de juros graduais e dependentes dos dados, após um ciclo de política monetária mais restritiva. A taxa de juros nos EUA deve cair ao longo de 2026 (ver gráfico), mas em um compasso mais lento do que o sonhado por parte do mercado, mantendo as condições financeiras globais relativamente apertadas. Para economias emergentes, como o Brasil, esse cenário funciona como um freio adicional: limita o espaço para cortes mais acelerados da Selic, influencia o comportamento do dólar e exige que o Banco Central desfile com atenção redobrada para não perder pontos no quesito credibilidade. Em suma, o samba internacional não desafina por completo, tampouco embala — e, nesse Carnaval global, seguir no ritmo certo importa mais do que acelerar demais.

No final da avenida, o balanço do desfile aponta para um enredo menos exuberante, porém tecnicamente bem executado. A combinação de inflação em desaceleração, atividade perdendo fôlego e ambiente externo ainda exigente sustenta a narrativa de que a Selic deverá, sim, seguir em trajetória de queda em 2026 — mas sem firulas ou passos largos demais. O Banco Central entra no último trecho do desfile com espaço para reduzir juros de forma lenta e gradual (a projeção do Focus é que a Selic encerre o ano em 12,25%), ajustando o próximo passo a cada dado novo, atento ao comportamento dos preços, à reação da atividade e, sobretudo, ao peso do carro alegórico fiscal. O risco maior não está em errar o passo por excesso de cautela, mas em ceder à tentação de acelerar além do ritmo permitido pela bateria. Assim, o Carnaval dos juros em 2026 tende a ser menos sobre euforia e mais sobre técnica, um desfile de transição em que ganhar pontos na credibilidade vale mais do que arrancar aplausos momentâneos da arquibancada.
Um resumo dos principais acontecimentos de cada dia que podem influenciar na taxa de câmbio, tudo isso em menos de 1 minuto.
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