Relátórios de economia
28/8/2025

Receita do crescimento econômico

Por

Cristiane Quartaroli

Coloque uma pitada de inflação, adicione duas colheres de juros, meia xícara de taxa de câmbio depreciada, sal a gosto e veja para onde irá o crescimento econômico! A receita não é exata e o prato nem sempre sai como o planejado, pois vai depender muito de quem está misturando os ingredientes, bem como da liga entre eles. Mas o fato é que quando falamos de crescimento econômico, olhamos muito além do PIB, que é divulgado trimestralmente pelo IBGE. Para entender a dinâmica da atividade econômica, é essencial acompanhar indicadores de mais alta frequência, que captam o ritmo da economia em um espaço de tempo mais curto e ajudam a antecipar tendências. O nível da produção industrial, a pesquisa mensal de comércio, o levantamento dos serviços, o famoso e importante indicador de atividade econômica do Banco Central, o IBC-Br, e as projeções do PIB, divulgadas no Relatório Focus, são apenas alguns dos indicadores que compõem esse mosaico, oferecendo uma visão mais detalhada do cenário. A análise desses dados nos permite compreender se a quantidade de ingredientes está sendo suficiente ou se é necessário fazer algum ajuste nessa receita!

 

Começando por um dos ingrediente mais amargo da nossa receita, a indústria, o setor que sofre com os juros elevados e o crédito caro. Os dados mais recentes mostram um setor que ainda não encontrou tração para um ciclo de crescimento consistente. Até tivemos alguns avanços pontuais em segmentos ligados a bens de capital, sugerindo algum otimismo em relação a investimentos futuros, mas o desempenho segue desigual. A produção de bens de consumo duráveis (produtos fabricados para consumo final das famílias e que possuem vida útil prolongada), por exemplo, continua sensível ao custo do crédito, enquanto a de bens intermediários (utilizados como insumos na produção de outros bens ou serviços) sofre com a demanda global mais fraca (ver gráfico). Essa combinação faz com que o setor industrial, historicamente importante para o crescimento econômico como um todo, tenha um papel mais limitado na atual recuperação.

 

Já o ingrediente mais popular e que abre o apetite da população de forma geral, o comércio varejista, apresenta um quadro um pouco mais favorável, sustentado pelo mercado de trabalho aquecido e pela recente desaceleração da inflação, que preserva parte do poder de compra das famílias (ver gráfico). Segmentos de bens essenciais, como supermercados, e categorias ligadas a serviços pessoais vêm mantendo um ritmo positivo. Entretanto, os setores dependentes de crédito, como eletrodomésticos e veículos, continuam enfrentando um ambiente desafiador, refletindo juros ainda elevados e cautela dos consumidores. Assim, embora as vendas do varejo estejam contribuindo para o crescimento econômico como um todo, talvez falte acrescentar uma pitada a mais desse ingrediente para dar mais sabor e força necessária para acelerar a atividade de forma mais ampla.

 

A calda de chocolate do nosso bolo, ou melhor, o setor de serviços - que representa mais de 70% do PIB- continua sendo o principal motor da economia brasileira – e, também, o ingrediente responsável por manter a inflação ainda acima da meta. Atividades ligadas à tecnologia da informação, serviços empresariais e turismo continuam mostrando expansão, embora com sinais de perda de ritmo em relação aos trimestres anteriores. Essa acomodação é natural após o forte crescimento observado no pós-pandemia (quem não enjoa de comer chocolate todo dia, não é mesmo? – eu não!), mas ainda mantém os serviços em terreno positivo e com peso suficiente para sustentar o nível de atividade (ver gráfico), compensando parcialmente nosso ingrediente mais insosso, a indústria.

 

Junta tudo, mistura, acrescenta um pouco de fermento, outras coisinhas mais e pronto, temos a leitura do nosso queridinho IBC-Br, ou a prévia mensal do PIB. Para quem não conhece, o IBC-Br é um indicador de atividade econômica, divulgado mensalmente pelo Banco Central e  considerado como se fosse uma prévia do PIB. O índice vem mostrando oscilações nos últimos meses, refletindo exatamente o contraste entre a força dos serviços e a instabilidade da indústria e do comércio. A última divulgação apontou crescimento moderado (ver gráfico), sinalizando que a economia não está em retração, mas deve avançar em ritmo mais contido no segundo semestre, sobretudo diante da política monetária ainda restritiva e do cenário externo menos favorável. Mas e aí? Será que essa receita vai dar certo no final?

 

As expectativas captadas pelo Relatório Focus corroboram a visão apontada pelo IBC-Br. Depois de algumas revisões para cima no início do ano, as projeções para o PIB têm se estabilizado em um nível ligeiramente mais baixo, com analistas indicando crescimento mais modesto para os próximos trimestres. A percepção é de que, sem novos estímulos ou uma queda mais rápida dos juros, a economia tende a perder fôlego gradualmente, caminhando para um cenário de crescimento moderado, mas sem riscos iminentes de recessão. Ou seja, não estamos falando que o bolo não vai crescer, mas talvez falte um pouco de fermento para finalizar essa receita.

 

Conclusão: no fim das contas, a receita do crescimento econômico parece que vai seguir em fogo baixo, exigindo paciência e atenção à quantidade e qualidade dos ingredientes. Os dados de alta frequência são importantes para monitorarmos se a mistura está boa ou não, evitando assim que o bolo desande de vez. Contudo a leitura atual indica que, sem cortes mais significativos nos juros ou um impulso externo mais favorável, dificilmente veremos um crescimento econômico exuberante e sustentável no curto prazo. Assim, a forma deve sair do forno, sim, mas provavelmente com um sabor mais suave do que o desejado – e caberá à política econômica decidir se quer apenas manter a massa crescendo ou se vai ousar em novos temperos para acelerar o resultado final.

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