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23/4/26

Porque os importadores precisam se antecipar para o fim do ano: Já é Natal?

Por

Michele Loureiro

Nem bem a Páscoa saiu das prateleiras, o varejo já acelera para o Dia das Mães — mas, nos bastidores do comércio internacional, a contagem é outra: o Natal e a Black Friday já começaram. Para empresas que dependem de importações, especialmente da China, as decisões tomadas agora, ainda no primeiro semestre, são as que vão definir preço, margem e competitividade no fim do ano.

Os sinais dessa antecipação aparecem nos dados. Levantamento da Logcomex mostra que, entre janeiro e agosto de 2025, o volume importado pelo Brasil cresceu 6%, enquanto o valor FOB (preço da mercadoria na origem, antes de frete e seguro) avançou 10% na comparação anual. O movimento indica reposicionamento do varejo para a demanda de fim de ano, tendência que deve se repetir em 2026 diante de um consumidor mais atento a preço e prazo.

A pressão vem de ambos os lados da cadeia. De um lado, o consumidor. Dados do Google Consumer Insights indicam que mais de 70% dos brasileiros monitoram preços com mais de 30 dias de antecedência, especialmente em itens de maior valor. De outro, a operação. O ciclo de importação envolve uma sequência extensa — da identificação e homologação de fornecedores à negociação, produção, inspeção, embarque, transporte internacional e desembaraço aduaneiro. No modal marítimo, esse processo pode ultrapassar dois meses, sem contar oscilações cambiais, custos de frete e gargalos logísticos.

O câmbio segue como uma das principais variáveis de risco para importadores. O dólar começou o ano acima de R$ 5,40 e, ao longo dos primeiros meses, recuou, chegando a operar abaixo de R$ 5,00 em abril — movimento que trouxe alívio pontual, mas não eliminou a volatilidade. Para empresas com ciclos longos de importação, essa instabilidade continua impactando diretamente a formação de preços e reforça a necessidade de planejamento antecipado e estratégias de proteção cambial.

Nesse contexto, o prazo de seis meses deixou de ser uma recomendação e se consolidou como requisito competitivo. Antecipar compras amplia o poder de negociação com fornecedores, melhora o controle de custos e reduz a exposição a variações de câmbio e frete. O atraso, por sua vez, compromete o resultado antes mesmo da venda acontecer.

Os impactos se refletem diretamente nos números mais recentes do varejo. Em 2025, a Black Friday movimentou R$ 4,76 bilhões apenas no dia principal, com crescimento de cerca de 11% em relação ao ano anterior, enquanto o faturamento acumulado entre quinta e domingo ultrapassou R$ 10,1 bilhões no comércio eletrônico brasileiro. O desempenho confirma a força da data e reforça sua relevância dentro de um calendário promocional que já não se limita a um único dia, mas se estende ao longo de todo o mês de novembro.

Mais do que uma sequência no calendário, o Natal amplia de forma significativa esse potencial: em 2025, a data movimentou cerca de R$ 72 bilhões no varejo, consolidando-se como o principal período de consumo do ano e concentrando, em poucas semanas, um volume de vendas várias vezes superior ao da própria Black Friday.

A proximidade das datas amplia a demanda por importações, pressiona cadeias logísticas e eleva a necessidade de crédito para custeio, antecipação de compras e gestão cambial — especialmente em um cenário de maior sofisticação dos produtos importados e maior dependência de fornecedores asiáticos.

É nesse ponto que o planejamento financeiro ganha protagonismo. “Empresas bem capitalizadas conseguem negociar maiores volumes e prazos com fornecedores e antecipar campanhas promocionais”, afirma Izzy Pliti, diretor do Ouribank. Segundo ele, o ideal é que a preparação comece até o fim do segundo trimestre. “Esse prazo permite identificar necessidades de crédito, organizar importações, ajustar estoques e desenvolver ações comerciais de forma estruturada. Postergar esse processo aumenta o risco de custos mais altos e ruptura de estoque”, diz.

Nesse contexto, o executivo também destaca que o uso de hedge cambial se torna um aliado relevante, ao permitir que as empresas reduzam a exposição às oscilações do dólar e tragam maior previsibilidade aos custos ao longo do ciclo de importação.

A margem do fim do ano é definida agora

A crescente complexidade da cadeia global reforça o papel do crédito como ferramenta estratégica, e não apenas como suporte pontual. Linhas voltadas para capital de giro, financiamento de importações e antecipação de recebíveis permitem às empresas operar com mais previsibilidade e aproveitar janelas de oportunidade no mercado internacional.

“Empresas que adotam crédito estratégico conseguem transformar eventos de alto consumo em oportunidade de crescimento sustentável”, afirma Izzy. Segundo o executivo, o acesso a recursos financeiros viabiliza a compra antecipada de mercadorias, melhora as condições de negociação com fornecedores e garante estoques mais competitivos. No setor industrial, também permite a aquisição de matéria-prima, modernização de equipamentos e reforço de mão de obra para atender ao aumento da demanda.

Esse movimento se intensifica nos meses que antecedem o pico de consumo. Nos últimos anos, o Ouribank registrou aumento na busca por crédito empresarial no período pré-Black Friday e Natal, com destaque para pequenas e médias empresas interessadas em ampliar estoques e financiar campanhas promocionais. A expectativa é de crescimento adicional em 2026, impulsionado pela digitalização do varejo e pela maior integração com cadeias globais.

Para quem atua no comércio exterior, a mensagem é direta: o fim de ano já começou. E, neste cenário, não se antecipar custa caro — e, em muitos casos, compromete a competitividade antes mesmo da venda.

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