Relatórios de economia
24/1/2024

Sr. Phillips em: a taxa de desemprego e a inflação

Por

Cristiane Quartaroli

 Nossos leitores mais assíduos sabem que buscamos  traduzir sempre o “economês” para a vida real. Acreditamos que Economia é  algo que está presente em nosso dia a dia e que todos deveriam ter acesso aos  conhecimentos básicos dessa ciência tão ampla e interessante. Pensando nisso,  hoje vamos tratar de um tema que entrou em nosso radar no final do ano  passado e, aparentemente, no do Banco Central também; e que, em “economês” se  chama “Curva de Phillips” ou, de forma mais simples, a relação entre a taxa  de desemprego e a inflação. Será que acendeu uma luz amarela?

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 Segundo  essa teoria, existe uma relação inversa entre essas duas variáveis no curto  prazo. Na prática, ela serve para calcular como o desemprego afeta a inflação  e vice-versa. Ela mostra o impacto da população empregada nos preços de tudo  aquilo que precisamos comprar no dia a dia. De acordo com essa teoria, a  inflação e a taxa de desemprego têm uma relação inversa. Ou seja, quando uma  aumenta, a outra diminui. Quando há mais empregos, os preços costumam subir.  Isso quer dizer que a queda do desemprego pode influenciar no aumento da  inflação. O oposto também acontece, ou seja, caso o desemprego aumente, a  tendência é que seja necessário reduzir os preços para que as pessoas comprem  – veja no gráfico1 como é a curva de Phillips na teoria.

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Contudo, na prática, é sempre um pouco diferente e é importante mencionar que essa relação não é linear e pode ser influenciada por diversos fatores, como choques de oferta, políticas econômicas e expectativas dos agentes econômicos. No longo prazo, a relação entre desemprego e inflação pode se tornar mais complexa, envolvendo outros elementos estruturais da economia. Ou seja, parece simples, mas nem tanto.

O Banco Central, em sua última Ata divulgada no final de dezembro, dedicou um parágrafo à curva de Phillips, ou melhor, à relação entre mercado de trabalho e inflação. “A resiliência do consumo das famílias, que novamente surpreendeu positivamente, pode estar relacionada a um aumento da renda bruta familiar, em função da expansão do mercado de trabalho, de benefícios sociais e de ganhos de renda relacionados à desinflação em importantes segmentos da cesta de consumo. Por outro lado, a formação bruta em capital fixo, que é mais sensível às condições financeiras e às perspectivas e incertezas futuras, segue em queda, após uma forte elevação ao longo do período da pandemia. Alguns membros avaliaram que a persistência de uma conjunção de maior resiliência do consumo e queda no investimento poderia provocar, no médio prazo, um excesso de demanda em relação à oferta, com potenciais impactos sobre preços”.

E, de fato, os dados mais recentes da PNAD/IBGE mostram que nossa taxa de desemprego está patamar muito próximo da mínima histórica. Mais do que isso, a queda na taxa de desemprego veio acompanhada de uma melhora na renda da população de forma geral (veja o gráfico 2). Veja você, caro leitor, se em 2021 a renda média foi corroída pelo forte aumento da inflação que observamos ao longo da pandemia; nos dados mais recentes, o comportamento tem sido exatamente o contrário. Atualmente, o rendimento médio real (+6,0%) está rodando acima da inflação (+4,6%) nos dados acumulados em 12 meses. Um motivo a ser comemorado, claro. Mas, pensando na teoria que falamos acima, até quando esse crescimento tão expressivo da renda vai permanecer sem gerar inflação?

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Supostamente sim, mas como mencionamos acima, em prazos mais longos, a relação entre desemprego e inflação tende a se tornar mais complexa. Vale destacar que o aumento no rendimento médio real total reflete, em grande medida, à evolução positiva dos salários do setor de serviços - que têm um peso significativo em nossos indicadores de inflação (mais de 35% do total do IPCA, por exempo). Veja no gráfico 3 - o rendimento médio do setor de serviços também voltou a uma trajetória ascendente desde meados do ano passado. Não podemos afirmar com toda a certeza que a inflação irá subir única e exclusivamente por conta desse fator – até porque outros fatores tendem a influenciar o comportamento da inflação – principalmente quando pensamos em prazos mais longos. Mas essa a luz amarece está ficando mais evidente.

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Além disso, a combinação desses fatores com a expansão dos gastos que temos observado desde 2021 (após gastos extremamente necessários durante a pandemia), junto à previsão de maiores gastos também para 2024 (ver gráfico 4), tende a pressionar a inflação no futuro. Para se ter ideia, as projeções de inflação para os próximos anos (entre 2025 e 2028) estão em 3,50% - acima da meta estabelecida, mas abaixo do patamar atual (4,6%). Se, de fato, a realidade imitar a teoria, é possível que essas projeções sejam revisadas para cima e que isso se reflita em nossa taxa de juros – mas isso é um tema para outro especial!!!

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Por fim, vale destacar que embora pareça que de fato a luz amarela exista, nossa percepção é de que há outros fatores que poderão ter impacto positivo para a inflação deste ano, como a taxa de câmbio que deve continuar cedendo, a desaceleração esperada para nossa economia e, por exemplo, a expectativa de queda nos preços de algumas commodities. Além disso, o poder de compra do brasileiro hoje é menor – justamente por conta da forte elevação nos preços que tivemos ao longo da crise de 2015 e da pandemia – o que justifica a possibilidade de um menor consumo no futuro e, portanto, uma menor inflação. Dito isto, esperamos que o Sr. Phillips ainda não dê as caras em 2024.

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