Relatórios de economia
26/8/2026

Sobre patriotismo, probabilidades e eleições

Por

Cristiane Quartaroli

Parece que nos tornamos mais patriotas  apenas de quatro em quatro anos. Na Copa do Mundo, nas Olimpíadas e nas eleições. São momentos em que a bandeira aparece mais, o verde e amarelo toma conta das ruas e o Brasil volta a ocupar um espaço maior nas nossas conversas. Este ano, especificamente, tivemos a chance de demonstrar nosso patriotismo duas vezes. Primeiro na copa do mundo e agora nas eleições, período em que estamos sendo chamados para decidir os rumos do país. Em comum, momentos muito diferentes, mas que despertam aquela sensação de pertencimento que, no dia a dia, parece ficar um pouco adormecida.

Ok, é verdade que a torcida durou pouco na copa do mundo de 2026 e talvez seja por isso que vamos ter outra oportunidade agora em outubro. Com as eleições presidenciais se aproximando, os ânimos começam a se aflorar, as discussões esquentam, há bandeirinhas para lá e para cá estampadas nas redes sociais e há casos até de amizades desfeitas por conta de opiniões contrárias - na Copa também aconteceu, né? Ainda mais em um país atualmente tão polarizado politicamente. Estamos a pouco mais de um mês do primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para o dia 4 de outubro, e a campanha eleitoral já começou oficialmente. A partir de 28 de agosto, começa também o horário eleitoral gratuito na rádio e na televisão. O que podemos esperar, política e economicamente falando, até lá?

Para o mercado financeiro, eleições significam, antes de tudo, incerteza. E incerteza costuma se traduzir em volatilidade (ver gráfico). Não necessariamente porque o mercado tenha uma preferência por este ou aquele resultado, mas porque precisa tentar antecipar quais serão os possíveis impactos sobre a economia, principalmente em temas como política fiscal, inflação, juros e crescimento. E, neste ano, esse processo já começou.

O câmbio costuma ser um dos primeiros ativos a reagir. O real é um ativo bastante líquido e, por isso, é utilizado pelos investidores para ajustar rapidamente a exposição ao Brasil. Em períodos de maior incerteza, a demanda por proteção cambial tende a aumentar, enquanto investidores podem reduzir posições em ativos domésticos e, com isso, nossa taxa de câmbio tende a ficar mais pressionada nesses momentos (ver gráfico). A lógica é relativamente simples: quanto maior a percepção de risco, maior tende a ser o prêmio exigido para manter recursos em ativos brasileiros. Isso pode significar saída ou redução de posições estrangeiras, aumento da demanda por “ativos mais seguros” e, consequentemente, pressão sobre o câmbio.

Mas não é apenas o dólar que sente.

Na Bolsa, a reação tende a ser bastante desigual entre os setores. Bancos, empresas estatais, companhias ligadas ao consumo e setores mais dependentes do ciclo econômico doméstico costumam responder mais às mudanças nas expectativas para juros, atividade econômica e política econômica. Já empresas exportadoras e produtoras de commodities têm uma parcela importante de seus resultados determinada pelo cenário internacional e pelo próprio câmbio. É justamente por isso que, em momentos de maior incerteza, podemos observar uma rotação entre setores. O investidor não necessariamente reduz toda a exposição ao Brasil; muitas vezes, simplesmente muda a composição da carteira em busca de empresas menos sensíveis ao cenário doméstico.

E há ainda um terceiro mercado para acompanhar de perto: o de juros.

A curva de juros funciona como uma espécie de termômetro para as expectativas de inflação, política monetária e situação fiscal. Se o mercado entende que determinado cenário eleitoral pode aumentar o risco fiscal ou dificultar a trajetória da dívida pública, por exemplo, o prêmio exigido nas taxas mais longas tende a aumentar. Isso significa juros futuros mais altos e condições financeiras mais apertadas. O movimento contrário também é possível. Uma percepção de maior previsibilidade na condução da política econômica pode reduzir o prêmio de risco e favorecer o “fechamento” da curva, ou seja, o mercado passa a projetar juros mais baixos para os próximos meses ou anos.

Tudo isso acontece enquanto a economia brasileira entra no período eleitoral com taxa de juros ainda em patamar elevado, inflação ainda acima da meta e expectativa de desaceleração do crescimento econômico. Nesse contexto, o mercado terá que separar o que é ruído eleitoral do que efetivamente altera os fundamentos da economia.

E esse talvez seja o ponto mais importante.

Até outubro, pesquisas, debates, discursos, propostas e alianças podem provocar movimentos relevantes nos preços. Mas nem todo movimento de mercado significa mudança estrutural. Em períodos eleitorais, o posicionamento dos investidores também pesa. A liquidez pode diminuir, a procura por proteção aumenta e posições mais alavancadas (com maior risco) podem ser reduzidas de forma mais rápida. Com isso, uma informação nova pode produzir uma reação maior do que teria em um ambiente “normal”, ou seja, sem estar passando pelo período eleitoral.

A eleição, portanto, não é apenas um evento que acontece em outubro. Para os mercados, ela é um processo que vai sendo precificado aos poucos. Quanto mais o cenário eleitoral se torna claro, maior tende a ser a capacidade do mercado de atribuir probabilidades aos diferentes resultados e, principalmente, às políticas econômicas que poderiam vir depois deles. E é justamente essa mudança de probabilidades que pode provocar os movimentos mais importantes no câmbio, nos juros e na Bolsa. Até lá, teremos pesquisas, debates, campanha, discussões nas redes sociais e, provavelmente, muitas bandeirinhas.

No fim, talvez essa seja justamente a graça de ser brasileiro e patriota: encontrar uma maneira de torcer e contribuir para o país — nem que seja apenas de quatro em quatro anos!

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