
Por
Michele Loureiro
Além das questões políticas, a recente escalada da tensão entre Donald Trump e Nicolás Maduro reacende um dos principais vetores de atenção do mercado internacional: o câmbio. Em um ambiente de liquidez mais restrita e elevada sensibilidade a riscos geopolíticos, o embate entre Estados Unidos e Venezuela pode pressionar moedas emergentes, influenciar fluxos de capital e afetar expectativas relacionadas ao comércio exterior, inclusive no Brasil.
O aumento da tensão está associado à retomada de um discurso mais duro por parte de Trump em relação ao governo venezuelano, após uma operação conduzida pelas autoridades norte-americanas contra o regime de Nicolás Maduro. A ação foi acompanhada por acusações de violações democráticas, direitos humanos e suposto envolvimento do Estado com atividades ilícitas. Durante seu mandato, o republicano já havia imposto sanções econômicas severas à Venezuela, incluindo restrições ao setor de petróleo. A combinação entre ação concreta e retórica política reacende o risco de endurecimento das sanções ou revisão de acordos, movimento acompanhado de perto pelos mercados globais.
No primeiro dia útil após o episódio, o mercado de câmbio passou a operar com maior cautela. O dólar apresentou viés de valorização frente a moedas emergentes, em um movimento que pode ser interpretado como típico de momentos de aumento da incerteza externa. No Brasil, a moeda norte-americana oscilou em meio a ajustes de posição, em um ambiente marcado por liquidez mais restrita — combinação que tende a intensificar movimentos defensivos.
Esse comportamento encontra respaldo na dinâmica observada em episódios semelhantes. “As moedas emergentes acabam ficando mais voláteis em situações como essa. Além disso, devemos levar em consideração que estamos em uma época do ano em que a liquidez é um pouco menor”, afirma Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank. Para ela, em contextos de maior incerteza, a percepção de risco tende a favorecer o dólar e provocar ajustes nos preços dos ativos de países emergentes.
Embora o embate tenha natureza política, seus reflexos econômicos tendem a ocorrer de forma indireta. No caso brasileiro, os efeitos potenciais sobre as exportações não estariam concentrados no relacionamento comercial direto com a Venezuela. “Pensando em impacto nas exportações brasileiras, os efeitos tendem a ser mais indiretos do que comerciais. A participação da Venezuela em nossa Balança Comercial é pouco significativa.”, explica a economista.
Ainda assim, alguns segmentos tendem a reagir com maior intensidade a esse tipo de cenário. “Os setores mais sensíveis acabam sendo os relacionados a commodities, especialmente petróleo, alimentos e metais”, diz Cristiane. Segundo ela, a volatilidade cambial pode se refletir nos preços dessas mercadorias, afetando margens e estratégias de empresas exportadoras e importadoras. “Também é possível que haja alguma distorção regional, caso aconteça um redirecionamento da corrente de comércio para a Venezuela”, afirma.
A duração da situação também entra no radar da análise. Para a economista-chefe do Ouribank, o risco é, neste momento, mais conjuntural do que permanente. “A princípio, o embate ainda é bastante pontual. Mas não dá para excluir o fato de que ele possa ganhar um caráter estrutural”, afirma.
Caso esse movimento ganhe tração ao longo do tempo, os impactos poderiam ser mais relevantes para economias emergentes. “Um ambiente mais fragmentado e protecionista tende a elevar os prêmios de risco e pode afetar investimento e crescimento do Brasil ao longo de 2026”, diz Cristiane. Ainda assim, ela ressalta que esse não é o cenário base. “Acredito que essa seja uma possibilidade mais distante. Não acho que seja algo que deva, de fato, acontecer.”
Para empresas brasileiras com exposição internacional, o episódio reforça a importância do monitoramento constante do ambiente externo e das variáveis que influenciam o câmbio e o comércio global. Em um cenário marcado por incertezas geopolíticas recorrentes, oscilações cambiais podem se tornar mais frequentes, exigindo uma gestão mais técnica e integrada do risco financeiro.
Nesse contexto, ganham relevância soluções que combinam acompanhamento contínuo do mercado, estratégias de hedge, instrumentos de proteção cambial e estruturas de trade finance. Bancos especializados em câmbio e comércio exterior, como o Ouribank, apoiam empresas na leitura desse ambiente e na estruturação de operações que ajudam a preservar margens, dar previsibilidade ao fluxo de caixa e sustentar decisões estratégicas em operações internacionais, especialmente em períodos de maior volatilidade.
Um resumo dos principais acontecimentos de cada dia que podem influenciar na taxa de câmbio, tudo isso em menos de 1 minuto.
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