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15/1/26

Hedge cambial como ferramenta estratégica no início do ano

Por

Michele Loureiro

O início do ano costuma concentrar pressões relevantes sobre o caixa de empresas com operações internacionais. Além do pagamento de tributos, da reorganização financeira e, em muitos casos, de um nível mais elevado de endividamento, há um fator estruturalmente imprevisível que atravessa o planejamento: o câmbio. Sensível a variáveis econômicas, políticas e financeiras, a cotação do dólar oscila de forma constante e pode impactar diretamente custos, receitas e margens de empresas expostas a moedas estrangeiras.

Nesse contexto, o hedge cambial ganha protagonismo como ferramenta de gestão. Trata-se de um conjunto de instrumentos financeiros criado para proteger empresas e investidores das oscilações da taxa de câmbio. Na prática, a estratégia permite fixar, total ou parcialmente, a cotação futura de uma moeda, reduzindo a exposição a variações inesperadas. Isso vale tanto para exportadores, que recebem em moeda estrangeira, quanto para importadores ou empresas com dívidas e contratos atrelados ao dólar ou a outras moedas.

O aumento da atenção ao tema também se reflete na demanda por esse tipo de proteção. Em 2025, a procura por hedge cambial no Ouribank cresceu cerca de 300%, movimento associado à maior preocupação das empresas com a gestão do risco cambial e com a previsibilidade financeira em um ambiente mais volátil. Para Saulo Carvalho, superintendente comercial do banco, o hedge desempenha papel central no planejamento do ano. “A utilização da ferramenta auxilia na preservação das margens dos produtos e serviços, uma vez que define o preço futuro da moeda e dá previsibilidade de caixa para as empresas. A não utilização pode acarretar perda de receita e aumento de custos na operação”, afirma.

A dificuldade de prever o comportamento do dólar ajuda a explicar essa busca por proteção. Mudanças na política monetária de grandes economias, decisões de bancos centrais, tensões geopolíticas, dados de inflação e atividade econômica, fluxo de capitais e até eventos climáticos que afetam commodities estão entre os fatores capazes de provocar movimentos abruptos na taxa de câmbio. Em um ambiente global marcado por incertezas recorrentes, essas oscilações tendem a se intensificar nos primeiros meses do ano, quando o mercado ajusta expectativas após o fechamento do exercício fiscal.

A volatilidade recente ilustra bem esse cenário. Ao longo de 2025, o dólar variou entre R$ 5,27 e R$ 6,30, com picos de instabilidade mesmo em janelas curtas de tempo e média próxima de R$ 5,59. Movimentos dessa magnitude, quando aplicados a operações de grande volume ou contratos com prazos mais longos, podem gerar impactos relevantes sobre receitas e custos — justamente o tipo de risco que estratégias de hedge busca mitigar.

Por isso, a adoção da proteção cambial tende a ser ainda mais estratégica no início do ano, quando o caixa costuma estar mais pressionado e a margem para erro é menor. Travar o câmbio nesse período oferece maior segurança para planejar custos e receitas futuras, reduzindo o risco de que oscilações comprometam o orçamento. Além disso, contratar hedge em momentos de menor pressão cambial pode representar ganho de competitividade, ao permitir decisões financeiras menos reativas e mais estruturadas.

Para Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank, a volatilidade é parte inerente do mercado de câmbio. “As flutuações do dólar fazem parte do funcionamento do mercado e refletem a absorção de choques econômicos”, afirma. Segundo ela, em períodos de maior incerteza, moedas de países emergentes tendem a sentir esses movimentos com mais intensidade, o que reforça a importância de estratégias de proteção para empresas com exposição internacional.

As modalidades de hedge cambial

Entre os instrumentos mais utilizados no mercado brasileiro estão a trava de câmbio, os contratos a termo (NDF), opções e swaps cambiais. A escolha da estratégia depende do perfil da empresa, do volume da exposição, dos prazos envolvidos e da estrutura financeira do negócio. “Todos os clientes com recebíveis ou pagamentos em moeda estrangeira podem utilizar a ferramenta, mas o formato mais adequado varia de acordo com a necessidade de cada operação”, explica Saulo, que lidera uma equipe preparada para compreender as especificidades de cada cliente.

Em um cenário em que a cotação do dólar pode se mover de forma significativa em curtos intervalos de tempo, o hedge cambial deixa de ser apenas um mecanismo de defesa e passa a integrar o planejamento financeiro das empresas. Especialmente no início do ano, estruturar uma estratégia de proteção pode ser decisivo para atravessar os meses seguintes com mais estabilidade, previsibilidade e resiliência frente às oscilações do mercado internacional. “Quando o câmbio deixa de ser uma surpresa e passa a ser gerenciado, a empresa ganha condições de planejar melhor o crescimento ao longo do ano”, resume Saulo.

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