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25/6/26

Eleições, dólar e previsibilidade: por que o hedge cambial ganha força em momentos de incerteza

Por

Michele Loureiro

A aproximação do ciclo eleitoral já começa a impactar a forma como empresas brasileiras administram sua exposição ao dólar. Dados do Ouribank mostram que o volume de operações de hedge cambial realizadas entre janeiro e maio de 2026 cresceu quase 35% em relação ao mesmo período do ano anterior, refletindo uma preocupação crescente com a volatilidade do mercado e seus impactos sobre custos, receitas e margens.

“O aumento das operações mostra que as empresas estão mais preocupadas com o cenário eleitoral e com a volatilidade cambial. Quem possui ativos ou passivos em moeda estrangeira sabe que pode sofrer perdas relevantes se não estiver protegido no momento correto”, afirma Saulo Carvalho, superintendente comercial do Ouribank.

O movimento ocorre em um contexto de oscilações relevantes da moeda americana. A taxa Ptax, referência oficial do Banco Central para o câmbio, começou o ano em R$ 5,4372 e recuou para R$ 5,0780 em meados de junho. Embora a trajetória tenha sido de queda no período, as variações registradas ao longo dos meses reforçam um ambiente de incerteza que costuma ganhar força em anos eleitorais.

Historicamente, períodos eleitorais elevam a sensibilidade dos mercados a pesquisas, propostas econômicas, mudanças de expectativa e discussões sobre política fiscal. Isso faz com que o câmbio responda mais rapidamente a novas informações, ampliando a volatilidade e dificultando previsões. Para empresas que importam insumos, exportam produtos ou possuem contratos vinculados a moedas estrangeiras, essa instabilidade pode afetar diretamente o planejamento financeiro.

O desafio é ainda maior porque o risco cambial deixou de depender apenas do cenário doméstico. Decisões de bancos centrais, conflitos geopolíticos, desaceleração econômica global e mudanças no comércio internacional também influenciam o comportamento do dólar, tornando cada vez mais difícil antecipar movimentos do mercado.

O custo da especulação

Um dos riscos mais comuns em anos eleitorais é transformar a gestão cambial em uma aposta sobre o comportamento do mercado. Segundo Carvalho, muitas empresas acabam adiando operações ou esperando movimentos específicos do dólar na tentativa de obter uma cotação mais favorável.

“As empresas costumam especular, acreditando que um ou outro candidato vai ganhar e que isso fará o dólar subir ou cair. Muitos analistas apresentam cenários, mas ninguém sabe exatamente o que vai acontecer. Quando a empresa passa a tomar decisões com base nessa expectativa, ela coloca sua margem em risco”, afirma.

De acordo com o executivo, a principal função do hedge não é gerar ganhos financeiros, mas eliminar incertezas. Ao travar uma taxa de câmbio para uma operação futura, a empresa consegue preservar a margem projetada no momento da venda ou da compra, independentemente das oscilações posteriores do mercado.

“Quando faz o hedge, a empresa sai do risco político e da necessidade de acompanhar diariamente as movimentações do mercado. Ela garante sua margem e pode concentrar esforços no que realmente importa: seu produto, seus clientes e sua estratégia de crescimento”, diz o executivo.

A lógica é simples. Para uma empresa importadora, uma disparada do dólar pode elevar custos inesperadamente e comprometer a rentabilidade de contratos já fechados. Já para exportadores, movimentos bruscos também podem afetar receitas, fluxo de caixa e planejamento financeiro. Em ambos os casos, a previsibilidade passa a ser tão importante quanto a própria taxa de câmbio.

Essa percepção vem se consolidando entre empresas de diferentes portes e setores. Segundo Carvalho, não há um segmento específico mais exposto ao risco. Toda organização que possui ativos, passivos, receitas ou despesas em moeda estrangeira está sujeita aos efeitos da volatilidade cambial.

Por isso, a expectativa do Ouribank é que a demanda por operações de proteção continue crescendo nos próximos meses. O avanço de quase 35% observado no primeiro semestre reforça uma tendência que vem se consolidando nos últimos anos: o hedge deixou de ser uma ferramenta utilizada apenas em momentos de crise para se tornar parte da rotina financeira das empresas.

“A proteção cambial não deve mais ser vista apenas como uma estratégia. Ela precisa fazer parte do dia a dia das empresas. Quem não está habituado a utilizar mecanismos de hedge pode perder margem, competitividade e capacidade de planejamento”, diz o executivo.

Na avaliação de Carvalho, o aumento da procura também reflete uma mudança de mentalidade do mercado. Mais do que contratar um produto financeiro, as empresas estão buscando incorporar a gestão de risco cambial aos seus processos de decisão. “Nosso papel não é apenas oferecer hedge. Trabalhamos para mostrar aos clientes como a proteção pode ser incorporada ao dia a dia do negócio, trazendo mais segurança e previsibilidade para a operação.”

Em um ambiente em que fatores políticos, econômicos e internacionais podem alterar rapidamente o comportamento do dólar, a proteção cambial passa a cumprir um papel cada vez mais importante: permitir que empresas tomem decisões com base em seus objetivos de negócio, e não nas oscilações do mercado.

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